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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Brasil Submerso

Publicado na seção de Opinião do CORREIO BRAZILIENSE, 25 Janeiro,2010.

Dione Moura
Docente da Faculdade de Comunicação da UnB, coordenadora do Projete Comunicação para Sustentabilidade

Nos anos recentes, o verão brasileiro tem sido cenário de enchentes, deslizamentos e fenômenos afins. Deparamos-nos com as muitas vezes evitáveis perdas de vida, com cenas contínuas de desabrigados, flagelados das chuvas. Em geral, somos tomados pela comoção do momento; reação importante, pois pode gerar ação solidária - doação de recursos, alimentos não perecíveis, medicamentos. Ser voluntário na Cruz Vermelha brasileira, em ONGs, grupos de bairro, grupos religiosos e similares é uma ação relevante.

A parábola nos diz que o próximo é aquele por quem você desvia o seu caminho. Diante de situações de calamidade pública, não há como ficar inerte diante de um quadro de tamanho desamparo.

Passado o momento da comoção, ainda haverá muito a fazer. A começar por questionar quais os motivos dessa omissão histórica. Seja nos centros urbanos ou zona rural-urbana, o cenário se repete. Uma área não é propícia para habitação, mas, ainda assim, a ocupação ocorre. Em algum momento, começa a apresentar sinais de fragilidade, mas não são feitas ações reparadoras ou transferência de moradores. Em seguida, é declarada como área de risco, mas continua habitada. Ao mesmo tempo, deveria ser feito um plano de evacuação para os momentos de iminência de o risco se transformar em dano. Risco é um alerta para o futuro - algo pode acontecer. Dano é o risco concretizado - algo aconteceu.

Depois do dano, surgem os recursos - tardiamente para os que perderam vidas. Se somarmos as já mais de 700 pessoas que perderam a vida na região serrana do Rio de Janeiro com as de São Paulo, Minas Gerais e outros estados, chegaremos, provavelmente, a mais de mil vidas perdidas no Brasil - associadas ao fenômeno das chuvas - em somente um mês.

Mês que sintetiza décadas de uma política urbana que não preveniu e não soube reagir frente ao encontro da ocupação urbana com os fenômenos naturais. Municípios que se formaram sem estabelecer a defesa civil local, ou sem integrá-la com os demais setores; sem traçar um plano de ocupação urbana sustentável; sem executar um plano de comunicação de risco. Comunicação de risco que deveria interligar os órgãos de monitoramento, os três níveis de governo, os órgãos de defesa (não somente a defesa civil), os meios de comunicação e a sociedade civil organizada.

Estamos diante de um crescimento urbano que gerou adensamento populacional em um país de vasto território. Não há emprego, saúde e outros benefícios em todos os lugares, argumentam alguns. Bem, emprego, serviço de saúde, educação, saneamento urbano não brotam do chão. São plantados pela ação humana, por decisões políticas, pela especulação imobiliária, pela concentração de indústria, comércio e serviços.

Poderíamos ter optado pelo modelo metropolitano, por exemplo. Um modelo que colocasse os serviços, a indústria, o comércio e direitos sociais acessíveis de forma descentralizada, em vez de obrigar a população a se dependurar em torno dos mesmos. Lição mais bem explicitada pelo geógrafo Aldo Paviani, em entrevista à revista Campus Repórter.

Nos grandes centros urbanos, e até mesmo nas pequenas cidades, estamos submergindo. Um verão difícil. Sofremos por ações que deveriam ter sido executadas há décadas (quando poderíamos ter escolhido outros modelos de urbanização), há anos (quando poderíamos ter transferido populações de áreas de risco e evitado novos adensamentos), há dias (quando as prefeituras e demais atores responsáveis poderiam ter implementado sistemas de alerta e meios para evacuar as áreas de maior risco).

Há problemas de vontade política, planejamento e gestão, assim como de comunicação de risco, entre outros. Temos que mudar nossos modelos de ocupação urbana, implementar um efetivo mapeamento de áreas de risco e políticas de prevenção, com a devida atenção aos planos diretores de ordenamento territorial (Pdots). Precisamos reduzir a ocupação em áreas de risco identificadas e não somente mapeá-las.

Ainda não temos, mas precisamos ter, um sistema de comunicação de risco que parta do mapeamento, efetue o alerta e apresente planos e condições de evacuação que possibilitem às pessoas salvarem suas vidas. Se não for para salvar vidas, de que servirá?
UnB Agência
http://www.unb.br/noticias/unbagencia/cpmod.php?id=83088